Artigo

Não é mais SE, é COM QUAL VELOCIDADE

Organizações que evoluem lentamente não sobrevivem. Só organizações capazes de aprender – e rápido – é que se sustentam no mercado. A questão portanto passa a ser sobre a velocidade com a qual a sua organização é uma Learning Organization.

O tema Learning Organization em si vem sendo estudado há quase 30 anos. Peter Senge disseminou o conceito de Learning Organization ao publicar, em 1990, o livro “A Quinta Disciplina”, considerado um divisor de águas na literatura de administração de empresas. Conceitos como visão compartilhada (shared vision), modelo mental (mindset),pensamento sistêmico (system thinking), domínio pessoal (personal mastery),aprendizagem em equipe (team learning) compunham a base sólida de um projeto acadêmica e filosoficamente consistente, que inspira e faz parte do vocabulário dos corredores da maioria das organizações até hoje. A obra, com vendagem na casa dos milhões de cópias, contribuiu para catapultar Senge ao hall da fama dos autores considerados seminais – mas ao mesmo tempo, tornou-se alvo de críticas.

Afinal, como faço para construir uma Learning Organization?
A frase poderia ressoar nas salas de reunião de líderes empresariais na década de 90, incomodados pela dificuldade de aplicar de maneira palpável e com ações concretas os conceitos que Senge brilhantemente disseminava. Naquela época, surgiram publicações sobre como construir uma Learning Organization – o próprio Senge, em resposta, publicou em 1994 o livro “A quinta disciplina: caderno de campo”, com ferramentas, casese dicas para implementar os conceitos que pregava.
Na década de 2000, organizações que procuravam implementar o conceito de LearningOrganization, seja com consultorias especializadas ou recursos próprios, se questionavam:

Será que minha empresa de fato É uma Learning Organization?
Buscavam-se formas de mensurar o aprendizado organizacional, uma vez que, aquilo que não se pode medir, não se pode melhorar. Já não bastavam apenas as medidas de resultado, como lucratividade, era preciso mensurar o aprendizado em aspectos que melhoravam a competitividade, a qualidade, a logística e a introdução de novos produtos. Também se buscava entender mais sobre o processo, ou seja, entender quais eram as fontes de conhecimento e quais eram os alavancadores da aprendizagem. A procura pelas práticas organizacionais servia como “fiel da balança”, afinal ninguém dorme e acorda, no dia seguinte, sonhando em criar uma Learning Organization. O que se quer é o resultado disso, ou seja, a melhoria constante e sustentável dos resultados.
Penso que a questão que está nos corações e mentes de dirigentes, nesta década é:

Será que somos capazes de ser uma Learning Organization na velocidade certa?
Ouso dizer que a empresa que não é uma Learning Organization, ou seja, que não tem um processo de aprender com os próprios erros, que não tem uma visão de futuro clara e compartilhada entre lideranças e equipes, que não forma times capazes de gerar e transmitir conhecimento e que também não busca desenvolver pessoas rumo a excelência pessoal, está fadada a ficar fora do jogo competitivo mais rápido do que nas décadas passadas. No nosso mundo VUCA (Vulnerável, Incerto, Complexo e Ambíguo, termo cunhado por militares norte-americanos) e também na era exponencial na qual decolam empresas como Uber, Airbnb e Tesla, as mudanças acontecem rápido demais.
Fico imaginando o que será que pensaria, hoje, o conselho diretivo da Blockbuster, sobre o fato de terem declinado a oportunidade de adquirir, por 50 milhões de dólares, uma empresa muito menor, chamada Netflix. Hoje, a Netflix tem, nos EUA, mais assinantes do que todas as redes de TV a cabo juntas!

Não basta, somente, estar aberto para o novo. Está nas mãos das lideranças o papel de criar, continuamente, as bases para que as organizações se abram para aprender cada vez mais rápido.
Uma postura que acredito que faça a diferença é opor-se a miopia corporativa do “não inventado aqui”, é encarar de frente o que incomoda, manter-se antenado para ver objetivamente o que está acontecendo no mundo, o que pode causar impactos e trazer esses fatos para a mesa de discussão e ação. É entender que o enxugamento precipitado de profissionais mais experientes, justificado por pressões de fluxo de caixa, pode causar “vazamentos” de conhecimento que estavam, por razões que não são objeto deste artigo, presentes apenas nas cabeças de algumas pessoas e não transferidos para os processos organizacionais. O impacto final é sentido pelo cliente fiel, outrora satisfeito e agora se questionando, por que será que a empresa está pecando naquilo que fazia tão bem?

Encerro compartilhando duas ações práticas, para aprimorar a sua velocidade de aprendizagem. A primeira foi sugeria a mim por um investidor de venture capital: se você deseja acelerar seu aprendizado sobre o que está acontecendo no mundo, comece conhecendo o que as startups estão fazendo. Marque uma visita ao Cubo do Itaú, conheça o InovaBra do Bradesco, passe um período trabalhando em um Co-working, ou ainda, se puder, passe uma semana em uma missão para o Vale do Silício – e compartilhe o que aprendeu nas reuniões, bem como procure fazer uma contínua sondagem do ambiente de maneira prevista e planejada na rotina de gestão, por exemplo quinzenalmente, não deixando isto ao acaso.

A segunda dica é: desaprenda algo todos os dias. Isso mesmo, abra espaço para aprender algo, primeiro desaprendendo. Desafie os seus modelos mentais, abra-se para o inusitado. Não é fácil, e exige o que chamo de atitude OLX: Desapega! Busque um novo caminho para chegar ao trabalho, baixe um aplicativo que solucione um problema do dia a dia, passe por uma experiência que você nunca experimentou antes, encontre um jeito diferente de fazer coisas rotineiras, conviva com pessoas que pensam radicalmente diferente de você. Nutra, como diz Jeff Bezos, fundador da Amazon, a atitude de estar em “permanente beta”, ou seja, em permanente estágio de testes. E se você tiver possibilidade, mobilize e inspire pessoas para criarem uma cultura em permanente beta dentro da sua área.
E, aproveite cada segundo dessa jornada como algo mágico dos tempos que vivemos!


Sobre o autor:

Dante Mantovani é Coach para Executivos, Consultor em Educação Executiva, Trainer e Professor. Apaixonado por Educação, atuou como gestor em áreas de Procurement, Gestão de Projetos, Universidade Corporativa, Desenvolvimento Organizacional e Diretoria de Unidade de Negócio, em em empresas brasileiras e multinacionais.
Formou-se em engenharia e psicologia, obteve seu MBA nos EUA. Mestrando na FEA-USP.